Dezembro de 2011 em
University of Texas Medical School at Houston - Center of Excellence in Mood Disorders
"It is the experiences, the memories, the great triumphant joy of living to the fullest extent in which real meaning is found."
Sobre os momentos mais especiais da vida - I,
costumam ser raros e marcantes; nem sempre nos damos conta de sua grandeza no ato em que ocorrem, sendo por vezes necessária a carinhosa análise retrospectiva, como acontece, por exemplo, quando lembramos do quanto foi mágico aquele dia da infância distante, quando, pequenos em estatura, mas grandes em espírito - como só as crianças sabem ser, recebemos da vida um olhar oblíquo e iluminado. São as lembranças geralmente mais ricas em texturas e símbolos. Assim foi o dia em que, ao final da aula, em uma rua vizinha ao colégio, encontrei um amigo sentado no meio fio, só e cabisbaixo. Após mais um dia de incansável zombaria por parte dos colegas, ele parecia finalmente ter sido abatido em seu ego de pequeno homem. Sendo o cara especial que era, sempre me impressionou a complacência esportiva com que recebia as pesadas brincadeiras dos demais, que insistiam em reparar nos mínimos detalhes de sua existência e disso garantir sua cota diária de diversão. Naquele dia, porém, eu notei a queda do gigante e, angustiado, não o vi entre nós ao tocar do último sino da tarde. Inventei uma desculpa qualquer e fui em sua busca. O movimento ainda era pouco fora dos muros da escola; andei por cerca de 10 minutos e estava prestes a desistir quando o avistei, de longe, na situação em que o descrevi acima. Fui ao seu encontro, chamando por ele, que permanecia imóvel e não esboçava qualquer reação. Finalmente, parei ao seu lado. Éramos apenas nós dois naquela rua deserta, iluminados pelas lâmpadas amareladas de uns postes, posto que era final de tarde e o céu já tinha um tom azul escuro. Mais uma vez chamei por seu nome, sem sucesso. O pequeno e taciturno coleguinha ignorava a minha presença. Tentei puxá-lo pelo braço e a reação foi imediata, livrando-se ele da minha mão. Perguntei o que havia acontecido e o coitado, puto da vida, ainda tentou umas palavras firmes antes de desabar em choro. “não aguento mais”, dizia soluçando. Cheguei a contra-argumentar qualquer besteira, dizer que não era bem assim e que todos tinham por ele grande apreço, apenas não o sabiam demonstrar e - minhas palavras soavam cada vez mais vazias. A ira transformou-se em pura tristeza e aquilo mexeu muito comigo. Acabei tomando a atitude mais simples e sincera possível - ao menos é o que penso hoje. Sentei-me ao seu lado e me coloquei em silêncio, talvez o silêncio mais companheiro de que já participei desde então.